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Quando ser um especialista é melhor que generalista e vice-versa

Quando ser um especialista é melhor que generalista e vice-versa

Algumas vezes, quando comento sobre o que é um polímata, iniciamos uma conversa sobre quando ser um especialista é melhor que generalista ou o contrário. Contudo, ser polímata não significa que você é um generalista e também não descarta o papel dos especialistas. Na verdade, as três funções podem coexistir, e até mesmo devem, dentro de uma empresa. Cada um tem seu lugar.

Apesar de existir pouco conteúdo, pelo menos não encontrei, sobre as vantagens e desvantagens que cada um tem, encontrei uma pesquisa da Universidade do Sul da Califórnia, em tradução livre, "O papel da diversificação do conhecimento em empresas". Vou comentar um pouco sobre ela.

Quando ser um especialista é melhor que generalista?

Um posicionamento-chave desse estudo é que muitos dos avanços acontecem ao combinar  diferentes áreas de especialização. 

Por exemplo, a invenção de Charles Babbage de máquinas computacionais foi inspirada pelo conhecimento de Charles com a indústria de tecelagem de seda. Da mesma forma, a ideia revolucionária de Henry Ford da linha de montagem de fabricação de automóveis foi inspirada em matadouros de carne.

Dessa forma, um dos vieses mais comuns dentro de criatividade, e até mesmo eu já falei isso em palestras e cursos, que você consegue estimular a criatividade ao incentivar as pessoas a explorarem novos campos, ganhar mais referências e se envolvendo com novas pessoas. Quanto mais experiência, mais podem conectar pontos onde outras pessoas não enxergam um vínculo.

Mas tem um outro estudo descobriram que existem custos com os generalistas. Tem um ditado em Inglês que não tem exatamente uma tradução: "Jack of all trdes, master of none", ou algo como "sabe um pouco de tudo, mas que não sabe nada". Essa linha de pesquisa argumenta que os especialistas, com uma compreensão mais profunda do assunto, podem identificar e aproveitar melhor as oportunidades.

Por exemplo, pesquisadores descobriram que a recombinação de ideias de um domínio de especialização, em oposição a várias áreas do conhecimento, leva a mais inovações. Os especialistas também podem ter mais facilidade em colaborar, porque fica mais claro como o trabalho deve ser dividido.

E quando um generalista se sai melhor numa equipe?

Esses pontos sugerem que ser um especialista é melhor que generalista, em áreas importantes, do que incentivar seus funcionários a se tornarem generalistas, certo?

Lembrando que ser um polímata não é o mesmo que ser um generalista, contudo eu não encontrei pesquisas falando sobre ser um profissional em T.

Há evidências consideráveis ​​apoiando ser um generalista pode ser melhor que um especialista, por isso penso que ambos provavelmente estão certos. Mas deve haver certas circunstâncias sob as quais os generalistas brilham e outras sob as quais os especialistas o fazem. Tem um artigo da SC Johnson College of Business, eles comentam um pouco sobre isso.

A teoria é que os benefícios de ser um generalista são mais fortes em áreas com um ritmo mais lento de mudança. Nesses campos, pode ser mais difícil para os especialistas inventar novas ideias e identificar novas oportunidades, enquanto os generalistas podem encontrar inspiração em outras áreas.

E o oposto também é verdade: especialistas se dão melhor em áreas que mudam mais rápido, uma vez que generalista terão dificuldade em se atualizar.

Para testar isso, estudaram uma áreas que experimentavam uma mudança repentina de ritmo e outras que permaneciam estáveis. Foi exatamente o que aconteceu na matemática teórica após o colapso da União Soviética.

Como o estudo foi conduzido:

Nos anos 80, os matemáticos soviéticos estavam à frente de seus colegas ocidentais em alguns campos da matemática teórica, mas não em outros. Quando a União Soviética entrou em colapso, uma grande quantidade de avanços científicos tornou-se disponível para os matemáticos ocidentais. Isso aumentou o ritmo de mudança nos campos em que a União Soviética estava à frente do Ocidente.

O estudo comparou matemáticos que trabalham em campos que sofreram mudanças rápidas (principalmente subcampos de análise matemática) com aqueles que trabalharam em campos menos afetados (principalmente subcampos de álgebra e geometria). Em seguida, foi rastreado o desempenho de mais de 4.000 matemáticos no período 1980-2000 - 10 anos antes e 10 anos após o colapso da União Soviética. Também foi analisada a quantidade de publicações e a qual área elas pertenciam, ajustado pelo número de citações (a fim de controlar qualidade).

O resultado:

Em campos que não mudaram muito (campos de ritmo mais lento), os especialistas eram menos produtivos que os generalistas, mas essa lacuna aumentou ainda mais após o colapso. 

Nos campos mais afetados (campos de ritmo mais rápido), aconteceu o contrário. Enquanto antes do colapso os especialistas eram mais produtivos que os generalistas, após esse colapso essa lacuna aumentava, porque a produtividade dos especialistas aumentava enquanto a produtividade dos generalistas diminuiu. Eles chegaram a publicar 83% mais artigos com peso de citação do que os generalistas nos 10 anos após o colapso, em relação aos 10 anos anteriores.

Não existe uma estratégia única para promover a criatividade. Em um livro incrível, chamado Range, David Epstein estuda sobre o sucesso em executivos. Em vez de eles se tornarem especialistas logo no começo, esses executivos estudados experimentaram em diferentes carreiras e cargos, porque eles têm um maior arsenal de onde podem extrair novas ideias, mesmo sendo um especialista depois. Tem uma entrevist dele com o pessoal da escola de Wharton aqui.

O que podemos aprender com isso na hora de montar nossas equipes e definir nosso futuro?

 

Lendo sobre quando ser um especialista é melhor que generalista e vice-versa, você deve ter descoberto que não existe uma resposta concreta, depende muito do tipo de pessoa que você é.

Se você é mais apaixonado por um tópico específico, você deveria considerar isso pra sua carreira. Paixão é necessária para o sucesso e, se você ama aprender sobre aquilo, não se preocupe em se tornar um especialista. Especialistas podem ser polímatas também.

Do outro lado, se você tem interesses mais amplos, como eu, e/ou ainda não sabe o que quer pra sua carreira, comece como um generalista, experimente diferentes áreas e lá na frente você poderá escolher um caminho. Aproveite e comece a estudar sobre as habilidades do futuro.

A sua escolha não vai te definir como mais inteligente ou melhor. Especialistas não são mais espertos que generalistas e o contrário também é válido. Os dois caminhos exigem trabalho duro para se tornar relevante, ainda mais num mundo complexo como o de hoje.

Numa última análise, ambos os caminhos oferecem vantagens e desvantagens. Depende de sua personalidade e objetivos de carreira e de vida.

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Polimatas

Ivan Chagas - Escola de Polímatas
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Ivan Chagas organiza eventos desde 2011, é professor em cursos presenciais e virtuais há 4 anos, certificado como designer instrucional pela Universidade de Illinois em Urbana-Champaign.

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