em Pequenas Ideias

Eu sempre fui muito seduzido pela ideia niilista de que o mundo não liga para nós e que não existe razão intrínseca de ordem maior para se viver. É tudo o acaso, o caos. Ao mesmo tempo, eu tenho muita vontade de fazer a diferença e fazer o meu possível para deixar um saldo positivo entre o que eu consumi e o que eu produzi. Eu vivo nesse balanço interno entre: “Ivan, ninguém liga para você, você não faz diferença” e “Ivan, se sua existência não tem um propósito, crie o seu próprio”.

Eu consumo muito conteúdo sobre a desigualdade que existe e um tema que me toca bastante é sobre os privilégios e facilidades de acesso que certas pessoas têm. Um exercício mental muito simples pergunta: “Se você pudesse escolher onde nasceria, em qual lugar e posição social você preferiria?”. Sem contar questões como família e amigos, uma resposta clichê talvez seria “numa família rica na Europa”. Eu nem preciso dizer branca, porque quando pensamos numa família rica na Europa, eu imagino o que veio à sua cabeça. 

Eu nasci numa família classe média, branca, na região mais pobre do estado de São Paulo. Ainda assim, eu tive acesso à universidade pública, sou branco, não precisei trabalhar até a faculdade e me dei ao luxo de largar meu emprego para tentar empreender – essa é a terceira vez que isso acontece. Aí eu vejo que existe muita gente passando por necessidades simplesmente por não terem tido a sorte que eu tive – ainda que eu viva nesse conflito de pensar “eu poderia ter tido mais sorte”.

Então, se sua vida é tão determinada por circunstâncias completamente fora da sua influência, o quanto você pode ser responsabilizado ou responsabilizada pelo seu futuro? Existe isso mesmo de liberdade? É isso que eu quero debater.

https://youtu.be/rB61yWfbgzE

PARTE 1: O que é agência?

O conceito de agência, no seu sentido mais puro, significa uma ação ou intervenção produzindo um efeito em particular, no dicionário de Oxford. Também tem a definição como “capacidade de atuação”.

Num artigo publicado na Stanford Encyclopedia of Philosophy (SEP), ou Enciclopédia de Filosofia de Stanford, é relatado:

“Sempre que entidades entram em relacionamentos casuais, pode se dizer que um tem ação sobre o outro e interage com o outro, causando mudanças. Nesse sentido mais amplo, é possível identificar agentes e agência, e pacientes e paciência, virtualmente em todo lugar. Comumente, o termo agência é usado num sentido mais estrito para denotar o desempenho de ações intencionais“.

Nesse sentido, e o que vamos usar aqui, vamos discutir um pouco sobre nossa influência e capacidade em alterar nosso futuro. Dentro das teorias sobre agências, podemos dividir talvez em duas correntes: livre-arbítrio e determinismo.

Existe livre-arbítrio?

Num sentido mais amplo, todos nós sabemos sobre o livre-arbítrio: é a crença de que somos totalmente livres para escolher o próximo passo que tomamos – claro, dentro das possibilidades físicas. Nesse sentido, tornamos as pessoas responsáveis pelas suas decisões e, até, pelos seus pensamentos.

Para elaborarmos a teoria do livre-arbítrio, precisamos definir algumas teorias precedentes, principalmente falando de determinismo. No extremo, o determinismo puro é o oposto do livre-arbítrio, mas existem algumas variações no meio.

Pense na ação simples da minha rotina: hoje de manhã, eu tomei café da manhã com café com leite, pão com manteiga, presunto e queijo e uma maçã.

Segundo o livre-arbítrio, eu tenho total capacidade de trocar o meu café. Tomar suco de laranja. Tomar iogurte. Fazer torrada. Ou até mesmo pular o café e esperar o almoço. Livre-arbítrio me diz que eu sou 100% culpado e agente da minha decisão sobre o que eu tomei.

Eu não vou entrar no mérito se é mesmo liberdade ter que acordar todos os dias para ir trabalhar, pagar as contas e que temos nossas obrigações, porque talvez isso esteja além. Embora eu vá, sim, falar de poder e liberdade num sentido mais macro.

O problema do café da manhã.

Existe uma teoria chamada determinismo, que propõe que todo o futuro é determinado ou influenciado, pelos eventos passados.

Se eu no dia anterior passei a manhã mais cansado, existe a possibilidade de que meu inconsciente tenha incutido que me faltou café, dado que a sociedade diz que café nos torna mais produtivos. Assim, minha decisão foi influenciada, em algum grau, por eventos no passado.

Agora, pense que, e eu falo de verdade aqui, tomar essa combinação de café da manhã, especificamente, me suscita muito minha infância, com momentos à mesa com minha família aos sábados, uma lembrança que carrego com muito carinho. Praticamente todo sábado, depois de ver TV, surgia aquele cheiro de café passado e pão fresco da padaria. Será então que eu sou pouco, moderadamente ou 100% influenciado pelo meu passado?

No determinismo puro, existirá a crença de que, se fôssemos capaz de reunir todos os fatores que me influenciam na tomada dessa decisão, seríamos capazes de saber se eu vou tomar café ou não.

Portanto, essa decisão já está tomada – a nossa sensação de liberdade só existe porque não temos consciência de todos esses fatores. Contudo, como essa é uma abstração, dado que nos é hoje impossível ter ciência de todas as forças e variáveis, surge o determinismo estatístico

Nele, nós conseguimos tentar prever certos acontecimentos usando modelos matemáticos. É assim que fizemos nossas provas de física no Ensino Médio. É como também enviamos o homem à Lua. Ou como recebemos as informações sobre o clima. Ou mesmo se vamos chegar ao nosso compromisso do outro lado da cidade, chutando as condições de trânsito. Enfim… o fato de acertarmos não nos diz que “o futuro está cravado em pedra e eu sou um clarividente”, mas sim que temos alguma capacidade de prever o futuro usando estatística.

O oposto do determinismo.

Para complementar essa base, temos o indeterminismo. No sentido mais simples, é o oposto de determinismo. Nele, os eventos são idiossincráticos, sem elos causais, portanto não passíveis de explicação. Indeterminismo é importante porque, enquanto no determinismo só existe um futuro, no indeterminismo podem haver múltiplos futuros, dado que não sabemos o que vai acontecer de verdade. Esse conceito vem do termo unbestimmtheit, que em alemão significa, “incerteza” ou “vagueza”. Podemos beber muito da fonte de Schrödinger. No mundo real, a gente consegue tentar prever se o gato está ali ou não, mas só teremos certeza mesmo quando abrirmos a caixa.

Portanto, ainda que possamos prever o futuro com certa acurácia, sempre existirá a probabilidade, ainda que ínfima em diversas situações, de um outro caso acontecer. É o que podemos falar sobre, se jogar uma bola pra cima, afirmaremos hoje que ela vai cair. Contudo, existe a probabilidade de um vento passar e jogar ela para o lado. Estou usando um exemplo absurdo, mas isso se aplica a casos mais palpáveis.

Os tipos de liberdade.

Portanto, o determinismo puro vai relacionar todas as minhas memórias afetivas, positivas ou negativas, com todas as minhas interações do passado que me levaram à minha decisão. É uma cadeia de eventos.

O fato de eu ter estudado Administração, depois ter me apaixonado por educação, depois empregabilidade, decidido dar aula, entrar numa jornada dupla de trabalho, não ter certeza sobre minha renda… tudo isso existiu para que, ontem, eu estivesse cansado a ponto de decidir tomar um café da manhã mais completo, da maneira que minha mãe fazia.

Vê? Eu não tive escolha alguma. Toda a minha vida, e a vida de todos que já existiram e existem, só se deu pra me levar a fazer essa escolha – e todas as escolhas seguintes. Nesse modelo de determinismo, não existe espaço para livre arbítrio.

Por isso, chegamos a dois tipos de liberdade e um tipo de falta de liberdade.

Temos a liberdade imprevisível. Nela, o acaso existe e o indeterminismo é verdadeiro. Nossas ações são imprevisíveis (até mesmo para nós mesmos) e existem futuros alternativos. Nós podemos fazer o que quisermos.

Temos a liberdade probabilística, na qual o determinismo estatístico é verdadeiro, só que o aleatório nunca é a causa. Ou seja, nossas ações não são completamente aleatórias. Nossas vontades podem ser previstas por estatística e nosso passado nos influencia.

O terceiro sentido, que não pode ser classificada como liberdade, já que é a ausência dela, seria a fatalidade. Nessa “liberdade”, tudo já está determinado e somos simplesmente receptáculos num jogo de tabuleiro de dados marcados.

Somos livres?

Repare que a própria teoria do indeterminismo declara que é uma teoria mental, uma abstração. Não tem como sabermos o futuro porque, pelo menos ainda, não conseguimos computar todas as variáveis. Tem uma narrativa linda e poética da The School of Life que fala do conceito de abraçarmos nossa falta de liberdade.

Nós somos como cachorros presos a uma carroça imprevisível. Nossa coleira é longa o suficiente para nos dar um pouco de liberdade, mas não tão longa para nos permitir andar por aí como queiramos. Um cachorro naturalmente espera ir para onde quer. Só que se ele não pode, então é melhor que ele continue caminhando acompanhando a carroça do que ser arrastado por ela e ser enforcado.

Refletirmos que nunca estamos sem uma coleira pode nos ajudar a reduzir nossa violência contra os eventos que vão contra nossos desejos. Pode parecer uma receita para a passividade, mas é menos irracional aceitar algo como necessário, mesmo que não o seja, do que como é rebelar-se contra algo que é.

Numa entrevista para o Big Think, Michio Kaku, físico e co-criador da teoria de campos de corda, comenta que, mesmo que o determinismo puro seja verdade, ninguém pode determinar os eventos futuros baseando-se no seu passado. Logo, existe aquele elemento surpresa, a possibilidade da incerteza. Lembra do unbestimmtheit?

PARTE 2: O que compõe a liberdade?

Para deixar o conceito de liberdade ainda mais rico, vou separar em dois termos, liberdade negativa e positiva.

A liberdade negativa fala do sentido de “liberdade de”, a sua capacidade de fazer tal coisa. Por exemplo, liberdade de religião, liberdade de subir vídeos no YouTube, liberdade de comentar, liberdade de frequentar bares e baladas. Estamos falando da ausência de obstáculos e restrições. Contudo, eu não tenho liberdade de voar pela restrição física, liberdade de publicar videoclipes de artistas no YouTube por conta da restrição de direitos autorais, ou liberdade de programar um novo Facebook hoje, uma vez que não possuo os conhecimentos.

Já a liberdade positiva fala sobre a minha capacidade teórica para executar essas ações. Eu tenho liberdade para programar um novo Facebook se estudar; ou de colocar subir videoclipes se eu deter os direitos. Os advogados da liberdade positiva a defendem como empoderamento do cidadão e da coletividade.

De uma certa forma, quando falamos de liberdade negativa, estamos falando de restrições impostas pelo exterior. Já a liberdade positiva como a sua capacidade de agir.

Um exemplo bem didático é o do café da manhã. Você pode pensar que é livre para escolher o que comer no café da manhã. Tem laranja, maçã, pão, café e suco. Você tem essas opções. Essa é a liberdade negativa.

Contudo, você passou dias vendo anúncios dessa nova marca de suco de laranja, mas não encontrava porque estava sempre esgotado. Hoje, é o primeiro dia que você vai poder tomá-lo. Você é realmente livre? Ou, usando um caso mais extremo: você está há anos pensando em parar de fumar e, hoje, cumpriu dois dias. São os seus primeiros dois dias sem fumar na sua vida. Existe uma força incrível secando sua boca por um cigarro. Você é mesmo livre? Essa é a liberdade positiva.

A tríade da liberdade.

Gerald MacCallum, um autor conhecido nesse campo, definiu o conceito de liberdade pautado em três pontos: o agente, as restrições e o objeto. Para discutirmos sobre liberdade, temos que nos perguntar quem é livre ou preso, do que esse sujeito é livre ou preso e o que é livre ou impedido de acontecer ou de se tornar. 

Um sujeito tem que ser passível de executar algo: aí temos a relação sujeito-objeto. A discussão de liberdade ou da não-liberdade vem de restrições que impedem um objeto de acontecer ou sofrer ação. Esse talvez seja o modelo mais básico para explicar a liberdade. Essa tríade foi composta em cima de Felix Oppenheim, em 1956, em seu artigo Valorizando a Liberdade, em tradução livre, mas ele abarcava somente o conceito de liberdade negativa. MacCallum decidiu fazer algo mais amplo para também abarcar a liberdade positiva.

No exemplo do cigarro, temos você como sujeito e sua vontade do que fazer no café da manhã como objeto. Se não tiver nada agindo sobre ele, nenhum restrição, ele é livre. Contudo, a abstinência do cigarro ou mesmo o efeito priming (essa pré-ativação causada por anúncios) o movem e coloca forças sobre a sua vontade própria. Portanto, você deixa de ser livre.

Sintetizando a liberdade.

Portanto, bebendo de todos esses conceitos, podemos resumir a liberdade 1) como a nossa capacidade de refletir sobre as possibilidades e de prever os possíveis efeitos; 2) nossa capacidade de agir em si; e 3) num outro nível, de refletir sobre nossa decisão olhando em retrospecto. Afinal, se conseguimos tomar uma decisão, devemos conseguir avaliar se realmente fizemos um bom julgamento.

Dando então nomes às competências: tomada de decisão, agência e autorregulação. Quando os três estão presentes, temos a liberdade. Repare que cada um fala de uma situação indo, talvez ironicamente, do futuro para o passado. Vale notar que essas três habilidades envolvem uma série de sub-competências, habilidades e atitudes.

A habilidade de tomada de decisão é sobre você conseguir entender o problema ou questão, visualizar as alternativas e pesá-las. Estamos falando de estimar o futuro.

A agência é, na mais pura forma, sua autonomia e capacidade de agir. Estamos falando do presente.

Já na autorregulação, falamos do passado. É sobre você relembrar o que você pretendia, o que aconteceu, o que impactou o resultado e aprender com isso, influenciando assim futuras decisões. Lembra que falamos do acaso ou da incerteza.

O diagrama da liberdade.

Capacidade de refletir sobre o futuro sem agência é somente elucubração, uma aspiração. Já uma pessoa que consegue agir e compreende os impactos da suas decisões, mas isso não reflete no seu processo de decisão, é somente imprudente. A capacidade de agir sem reflexão nos torna meras peças numa máquina que pensa por nós. Ou, como Auberon Herbert pôs: “cifras”. Cifra, nesse contexto, vem da sua origem do latim para significar “zero”, ou “vazio”. 

Para Auberon, filósofo de extrema-direita do século XIX, cifras são indivíduos que não possuem autonomia moral, deficientes em pensamento crítico e incapazes de agir com coragem. Um cifra tem muito medo ou é incompetente em pensar por ele mesmo, então, ele se submete às vontades dos outros, provavelmente repetindo slogans e mantras.

Ou seja, num mundo onde você tem liberdade e autonomia para fazer suas escolhas cotidianas, mas lhe falta competência para julgar, você é uma cifra. E não estou falando de uma distopia como 1984, mas podemos inclusive refletir sobre nosso mundo atual. Será que não existem acasos nos quais você nasce sem condições de, por vontade alheia, ser instruído sobre sua capacidade analítica?

Portanto, quando falamos sobre privilégios, local e condições de nascimento, eu penso muito sobre isso. E não é para colocar os menos afortunados como miseráveis e pessoas dignas de dó. Acredito que a condescendência tende a só ter valor para quem a sente.

Mas em certa extensão, eles nascem com condições piores para verem florescerem neles a competência de tomada de decisão, uma vez que recebem piores alfabetizações midiática, informacional, digital e literária, e por aí vai. Ou seja, nossa liberdade vem, penso eu, muito de onde nascemos. Uma pessoa que nasce em piores condições tem que lutar muito mais para conseguir conquistar a sua liberdade, nesse senso desse modelo triplo.

PARTE 3: Como podemos nos empoderar mais?

Sei que a palavra empoderamento hoje tem um vínculo muito forte com justiça social, o que tem seu valor, mas aqui eu quero usá-la mais no sentido de tomar responsabilidade para si do seu próprio futuro e ter maior controle.

Sem descartar o determinismo puro como uma possibilidade, ainda vale a pena refletirmos sobre a incerteza que a vida nos apresenta.

Embora o conceito de agência seja muito poderoso no que tange nos dar o controle sobre a nossa vida, sabemos que ela é altamente influenciada pelos fatores externos que nos acometem. Onde nascemos, como somos fisicamente, as oportunidades que nos são dadas, acidentes que possam acontecer.

Uma pessoa que aprecie mais o tipo de indeterminismo descrito no começo vai dizer que “ainda assim, mesmo para um acidente, nós escolhemos estar lá”. Sim, escolhemos, mas não sabendo o que ia acontecer. Como, dentro do modelo do diagrama da liberdade, poderíamos colocar isso dentro dos fatores de decisão?

Para fechar esse monólogo, vou comentar sobre três engrenagens do meu pensamento. Um artigo de Albert Bandura que comenta sobre o conceito de agência. Um artigo de Julian Rotter explicando o conceito de locus de controle. Finalmente, um livro chamado Seja você seu próprio psicólogo.

Você é responsável por suas reações até certo ponto.

Nesse livro que eu li quando eu era adolescente, Seja você seu próprio psicólogo, o grande aprendizado que eu tive é que nós sentimos raiva, sentimos tristeza, alegria, sentimos uma variedade de emoções e elas são muitas vezes ativadas por fatores externos – que são os gatilhos. Então, muitas vezes quando eu digo que uma pessoa me causou raiva, é porque eu tive um desentendimento com ela.

Mas o que o livro nos faz pensar é que, em última instância, ninguém tem a capacidade de ir até o meu cérebro, ou até o meu coração se você quiser assim, e colocar a raiva lá dentro. O que a pessoa pode fazer é dar um estímulo que vai fazer com que o meu corpo reaja. Assim, o meu corpo é responsável por produzir o sentimento de raiva.

O que o livro nos propõe refletir é que a gente tem, sim, um certo nível de controle sobre o que acontece com o nosso corpo. Tudo que passa na nossa cabeça é responsabilidade nossa. Claro, muitas vezes o nosso inconsciente vai influenciar e existem condições psicológicas que afetam a nossa capacidade de atuação consciente. 

Mas para uma pessoa em condições estáveis, ela tem o poder de reclamar o sentimento para si e dizer “isso é responsabilidade minha, eu tenho um nível de atuação aqui. Eu vou permitir ficar triste ou eu gostaria de mudar esse sentimento desencadeado pela situação”. Eu mesmo, após um término de namoro, eu me lembro muito bem: eu parei e decidi conscientemente desfrutar da tristeza e apreciar o que ela poderia me ensinar. 

Locus interno de controle.

Indo ao segundo ponto: locus de controle. Locus é uma palavra que significa lugar. O locus pode ser interno ou externo dependendo em onde você coloca a responsabilidade das forças que agem na sua vida. Se seu locus de controle é interno, você acredita mais que tem o controle da situação. Se seu locus é externo, você acredita que sua vida tende a ser regida mais pela sorte, pelos outros ou esquemas poderosos e superiores.

Enquanto Julian Rotter propôs que o locus de controle tem dois sentidos, motivação para a realização ou atribuição a fatores externos, uma outra teoria, de Bernard Weiner, propõe quatro dimensões. Sendo elas: habilidade (interna e estável), esforço (interno e instável), dificuldade da tarefa (externo e estável) e sorte (externo e instável). 

Indivíduos com alta motivação interna tendem a conferir o seu sucesso e as suas falhas à sua falta de esforço ou dificuldade da tarefa. Já as pessoas com locus externo de controle percebem, sim, que seu insucesso é devido à falta de habilidade, mas não à falta de esforço. Esse último grupo está fortemente ligado ao conceito de desamparo aprendido.

Desenvolvendo sua agência:

Portanto, acredito que o primeiro passo para dominarmos mais a liberdade no nosso dia a dia e agência é entendermos o conceito de Locus interno de controle. A partir do momento que conseguirmos avaliar as situações de nossa vida, classificando elas com maior precisão possível nesses quatro atributos (dificuldade da tarefa, sorte, habilidade e esforço) é que conseguiremos entender onde está o locus de controle de nossas vidas. Esse, acredito eu, é o primeiro passo para desenvolvermos a nossa sensação de agência.

Com a agência mais aguçada, começamos a nos empoderar de nossas decisões. Em uma palestra sobre seu livro, 168 horas, sobre produtividade, Laura Vanderkam relata “Eu não tenho tempo geralmente significa que não é uma prioridade”, falando sobre como “encontrar tempo” para as atividades é muito mais sobre dar mais prioridade para elas sobre outras coisas.

Da mesma forma, a partir do momento que você entende que muitos dos resultados que acontecem na sua vida são frutos ou influenciados pela sua habilidade ou esforço, você se torna mais consciente de quando você tomou as suas decisões.

Sim, existem situações nas quais a sorte, azar ou destino vão entrar em jogo – ou mesmo quando a situação exige mais do que podemos lidar. Mas para esses casos, apenas nos resta empoderarmo-nos sobre o que fazer a seguir, e não de elucubrar sobre a nossa capacidade ou não de ter evitado aquilo, de modificar o passado.

Numa terceira etapa, você melhora a sua habilidade de autorregulação, quando você aprende com suas decisões, o que você esperava delas e o que de fato aconteceu, e isso alimenta suas futuras decisões.

Uma ressalva.

A única ressalva aqui é que ter locus interno de controle demais leva à ansiedade, sensação de culpa desnecessária e uma constante busca por realização que passa do ponto do que é sadio. E isso vai se refletir no seu trato com outras pessoas, porque você terá tendência a controlar demais, culpá-las em excesso por seus erros e ser manipulador. 

Eu mesmo já convivi com gente que, olhando para trás, acreditava tanto em locus interno de controle que achava que ela deveria me controlar. O que tem um ponto de inflexão importante: ela acreditava tanto que ela poderia me influenciar que ela começa a atribuir a sua falha à minha incompetência ou falta de esforço. Não é curioso?

De qualquer forma, a gente pode se dar ao luxo de ter locus externo de controle em várias situações. Não vejo como ou você é uma pessoa decente ou tem locus externo. Não funciona assim.

Escolhendo de forma conveniente.

Dando um exemplo, recentemente eu experienciei uma série de azares: meu celular quebrou, meu computador parou de funcionar, meus cachorros estavam vomitando e eu tava me sentindo especialmente incompetente pelos vídeos que eu tava editando não ficarem no nível que eu imaginei na minha cabeça. Tudo isso enquanto passava por um processo de pedir demissão.

Eu poderia arrancar meus cabelos dizendo como tudo é culpa minha, eu sou um desastre e eu merecia tudo aquilo. Locus interno de controle. A tela quebrou porque eu derrubei, era fácil prever que o computador iria parar e eu deveria olhar mais meus cachorros soltos na praça. Mas eu decidi não mergulhar nisso.

Numa entrevista em 2003, David Foster Wallace diz “Tem muito narcisismo no ódio de si próprio”. Naquele momento, eu atribuí ao azar de meu computador parar de funcionar ao tempo mesmo, meu celular ter caído com a tela no chão ao descuido eventual e o problema dos meus cachorros ao indeterminismo de que eu não sabia que eles poderiam encontrar comida estragada.

Portanto, quando eu me deparo tendo que escolher entre “Ivan, ninguém liga para você, você não faz diferença” e “Ivan, se sua existência não tem um propósito, crie o seu próprio”, eu escolho lembrar que existe, sim, uma coleira em mim nessa carroça da vida. A coleira é longa ao ponto de me dar diversas liberdades. Só que, para minha sanidade mental e bem-estar físico, lembrar-me da coleira me dá conforto para não me preocupar em conjecturar sobre a estrutura da vida, se existe destino ou não e de coisas que eu não tenho a resposta.

Se somos todos cachorros presos eu não sei. Mas eu vou beber menos do narcisismo inerente à autodepreciação e aproveitar um pouco mais do meu suco de laranja no meu café da manhã.

Outras referências:

O que são os mónologos?

Enquanto meu objetivo principal é dar mais acesso à educação e formar pessoas para serem profissionais mais completos, eu me sinto muito tentado a criar um espaço de debate, envolvendo o mercado de trabalho de forma mais direta, mas também mais indireta.

Minha ideia é compartilhar uma visão minha, sem fins de apresentar a realidade, para iniciar o debate. Eu uso algumas teorias e conceitos existentes para que tenhamos um ponto de início e para que vocês saibam as referências. Sintam-se livres para se juntar e adicionar à discussão!