em Pequenas Ideias

Com toda essa comoção em torno do surto de coronavírus e essa mudança de trabalho presencial que as empresas justificadamente estão tomando, resolvi montar um texto (saindo um pouco do script programado desta semana) para falar sobre trabalho remoto e nômade, não dando dicas de gerenciamento de equipes, como muitos têm falado, mas sim do ponto de vista do trabalhador remoto.

Eu estou trabalhando há 3 meses remoto na minha empresa (e contando), mas nada a ver com essa pandemia, mas sim como parte de nossa estratégia de expansão

Eu era gerente de operações em uma escola de cursos livres e assumi a função de conhecer novos mercados, coordenar a distância o agendamento de novos cursos, reunião com professores (e conduzi-las), pesquisar sobre empresas nessas novas regiões (a princípio eram quatro) e ainda monitorar a performance comercial e de marketing. Tudo isso a distância, enquanto toda nossa equipe de operações, comercial, atendimento, marketing e nossos fornecedores se mantinham em Curitiba, sede da empresa.

Por isso, vou listar as dificuldades que eu passei e te ajudar um pouco nesses casos, desde conceitos mais técnicos, até de produtividade e passando pela relação de equipe remota.

Vamos começar pelos dados: o que dizem as pesquisas sobre trabalho remoto?

Trabalho remoto pode, sim, ser mais produtivo.

Você já deve ter ouvido sobre isso, se tem lido artigos e relatos sobre essa transição, sobre produtividade, e provavelmente pode ter duvidado – ou você já duvidava antes. Como pode alguém ser mais produtivo trabalhando de casa?

Uma pesquisa conduzida com empregados remotos de uma empresa, 23% disseram que eles estavam dispostos a trabalharem mais para completarem seu trabalho (o que eu não aplaudo, nem comemoro) e 30% reportaram alcançar mais em menos tempo. De forma geral, 77% confirmaram que melhoraram a produtividade trabalhando remoto de casa.

Uma outra pesquisa com 5.500 profissionais foi feita e 66% concordaram que a sua produtividade melhora quando não estão no escritório. Ainda mais importante, 76% pensam que têm menos distrações fora dos escritórios.

Essas pesquisas podem nos dar indicações de que os trabalhadores podem se sentir mais produtivos num ambiente remoto. Mas vamos ver se isso se converte em resultados para os negócios.

Um estudo monitorou de perto a performance dos funcionários no trabalho remoto. Funcionários de um call center tiveram a opção de trabalhar de casa. Isso resultou em 13% de melhora em sua produtividade. Apesar de 9% disso ter sido fruto de jornadas mais longas, 4% resultaram em mais chamadas no meio período de tempo.

Para finalizar, uma pesquisa com 3.400 funcionários, 45% dos trabalhadores remotos disseram amarem seu trabalho. Isso é mais que o dobro dos trabalhadores presenciais. Apenas 24% compartilharam os mesmos sentimentos com seus empregadores.

Vamos aos meus relatos pessoais de 3 meses trabalhando remoto com os 6 problemas que eu cometi fazendo trabalho remoto por 3 meses (e contando). Adicionalmente, eu tive uma experiência de trabalho virtual entre 2013 e 2015, mas como eram freelas paralelos ao meu emprego estável tradicional, não absorvi muitos aprendizados.

1) Comunicação é regra número 1.

Na Aldeia, a gente já usava o Slack como forma de comunicação, só que muita coisa acontecia nos corredores, obviamente.

Eu me perdia muito no que tava acontecendo e pescava algumas coisas no ar quando eu participava das reuniões e sentia que algo tinha mudado. Isso foi erro total meu, mas eu hesitava em perguntar no momento da reunião para não precisarmos passar por briefing sobre o que rolou na sede física, então eu perguntava pras pessoas via DM o que tava acontecendo.

Como já havíamos tido uma pessoa que fazia um freela pra gente remoto, sabíamos que reuniões com gente remota só funciona se todos estiverem remoto, ou pelo menos fingindo estar.

Isso foi um grande acerto. No momento da reunião, todo mundo ficava no computador. Tinha gente que tava na mesma sala, mas sem interagir entre si. É muito, muito ruim quando tem uma pessoa na videoconferência e as outras estão in loco, interagindo pessoalmente. Faça todos ficarem remoto, mesmo que no mesmo lugar.

Outra coisa: gente, aprenda a silenciar o microfone. É muito simples. Por várias vezes eu me pegava silenciando as pessoas que esqueciam de desligar seus microfones.

2) Seu WiFi não pode ser desculpa.

Nem todo mundo tem o privilégio de ter um plano de internet bom em casa, eu sei, mas assumir o trabalho remoto tem dessas. Eu enfrentei diversos problemas com wifi, inclusive durante reuniões importantes, mas fiz um upgrade do meu celular e virava a chave muito rápido e tudo funcionava bem. Inclusive, eu tive um problema com meu computador e já não posso fazer reunião com meu notebook, agora só uso celular, então eu sempre me certifico que a bateria está carregada. 

Falando em infraestrutura, eu tinha uma regra minha que eu não podia começar a trabalhar depois das 9 (mesmo que no trabalho presencial, eu chegava 9:30, raros os dias às 10h). Eu tinha uma mesa de trabalho, que só tinha régua de tomada, papéis de anotação e copos de café e água. Eu não misturava as coisas – isso eu sei dos tempos que eu tinha minha própria empresa e trabalhava de casa, nunca tive grana para pagar um coworking (e olha, hoje sou funcionário de um).

3) FOMO é real. Não fique ansioso. Se prepare.

Uma das adversidades que eu realmente não esperava: eu sentia o tempo todo que tava ficando de fora e improdutivo. Durante 2 anos, meu trabalho na Aldeia era servir às pessoas e fazia parte da minha rotina ser interrompido no corredor pra ajudar quem quer que fosse. No remoto, isso diminui drasticamente.

Tem um estudo que concluiu que aqueles que perdem contatos próximos impactam três pontos essenciais de uma relação de trabalho efetiva: formação de confiança, conexão e propósito mútuo. 

Eu cheguei a reportar durante semanas consecutivas ao dono da empresa que eu tava me sentindo improdutivo, que meu trabalho não tava valendo a pena e que parecia que eu precisava fazer mais. Como era um trabalho novo que eu tava fazendo, eu tinha alguns momentos ociosos, quando eu completava toda a minha lista de tarefas da 1:1 semanal (prática que existe há anos na Aldeia).

Aí eu comecei a reparar: minha lista de tarefas não tava menor, eu que tava tirando menos tempo de folga. Apesar de eu ter até morado numa casa (manutenção maior) e ter dois cachorros que vivem brincando, eu tirava menos tempo de folga da cadeira. Eu cheguei a passar o dia todo sentado, fazendo minhas coisas. Aí eu comecei uma rotina de fazer intervalos.

Isso é endossado por aquela primeira pesquisa que eu relatei lá em cima: 23% dos funcionários dizem que estão mais dispostos a trabalharem mais e 52% relataram que estão menos propensos a tirarem um tempo pra si. Isso não é sadio e não é praticável.

Não fiz nada do Pomodoro ou intervalos realmente programados, mas eu levantava para fazer meu café, eu parava para brincar com meus cachorros, eu conversava sozinho, eu abria o YouTube para ver alguma notícia. Intervalos existem nas empresas, é normal, só que trabalhando remoto, você esquece completamente de desligar seu motor por cinco segundos. No começo eu me sentia muito aflito, porque parecia que eu tava enganando a empresa, mas percebi que me fazia bem mentalmente.

Por isso, permita intervalos para você. Se você sentir que não tem autocontrole e ficar 1 hora afastado do trabalho, pode começar com alguma técnica de intervalos programados.

4) Planeje sua vida social. É sério.

Nas primeiras duas semanas, eu não tive nenhum problema em me sentir isolado. Passava o tempo todo em casa, supermercado, passeava com os cachorros, ia fazer meus exercícios. Tudo certo. Contudo, não demorou muito tempo pra eu começar a andar pela casa, ansioso, pedindo por contato humano. Comecei a fazer mais viagens (consequentemente gastando mais) só pra ver meus amigos. Isso durou de janeiro e março. Acho que desse tempo todo, fiquei uns 3 sábados e 5 domingos sem viajar.

Contudo, agora morando em Florianópolis, eu contatei meus conhecidos daqui (até pessoas que eu só tinha visto uma vez) e marcamos várias saídas, passeios, planejava meus finais de semana e me tornei muito mais aberto a interagir com gente com as quais eu não tinha a menor afinidade só para ter algum contato humano.

5) Eu tive imprevistos em relação à minha estadia.

Uma das diferenças do meu trabalho é que eu tava mudando de cidade a cada mês. Isso resultava em mudanças, adaptações, surpresas desagradáveis sobre algumas das estadias e planos B e C sendo executados. Talvez isso não se aplique a todos e, tivesse eu me mantido em Curitiba, nada disso teria acontecido.

Eu fiz uma pesquisa pobre sobre as estadias nas quais eu tava, anúncios de Airbnb ligeiramente mentirosos – por exemplo, fiquei 1 mês no Porto da Lagoa em Florianópolis, enquanto o anúncio dizia que era na Lagoa da Conceição – dois barros separados por 3km, mas radicalmente diferentes. Nunca gastei menos de R$23 de Uber e pagava R$10 no pão fatiado, porque só tinha uma opção de mercado.

Nas mudanças de casa, eu tinha que descobrir quais eletrodomésticos eu tinha, talheres, panelas, e toda sorte de instalações. Nos anúncios de moradia (eu acabei pegando dois apartamentos via Airbnb, um via Facebook e outro no Google), até tinha listado, mas como eu me planejava com 2 meses de antecedência, eu acabava esquecendo. Prestem atenção nisso!

Em Joinville, no verão, eu subestimei a necessidade de ar-condicionado, o que me fez mudar 4 vezes dentro da mesma cidade. No primeiro apartamento só tinha ventilador, no segundo o ventilador não tava funcionando, fui pra um terceiro que tinha AC, mas era minúsculo, até que achei um quarto que preenchia os requisitos. Isso tudo em uma semana.

6) O pior: minha criatividade morreu durante 90% do tempo.

O principal erro que eu tive nessa transição foi me focar demais em cumprir a lista de tarefas para não parecer que eu tava improdutivo. Eu corria atrás de fazer mais do mesmo trabalho, mesmo aquele que era evidente que tava errado, só pra eu provar por volume que eu tava fazendo algo.

Ainda assim, quando chegávamos no momento das reuniões (juntando ao fato que também era um cargo novo na empresa), eu me sentia muito menos produtivo que os demais. Minha criatividade morreu. Eu não conseguia trazer novas ideias ou mesmo contribuir com soluções para os problemas que enfrentávamos.

Era um cansaço enorme para mim tirar algo da cabeça para contribuir – e eu tive que fazer isso diversas vezes, mas parecia muito menos natural ou intuitivo do que sempre foi. Eu sempre fui conhecido por trazer novas soluções.

E faltando os últimos 10%, eu reparei o que tava faltando: eu tinha reduzido para 0 o meu momento de referências. Trabalhando com pessoas, marcando almoços com o pessoal, lendo, fazendo cursos, conhecendo gente novas e trocando ideias são ações pequenas, mas que servem muito para manter seu arsenal de ideias, referências e criatividade renovado. O fato de eu passar 100% do meu tempo produtivo focado na lista de tarefas fez com que eu parasse de conhecer coisas novas.

Por isso, nas últimas duas semanas, eu foquei em voltar a estudar, ler novos materiais, pesquisar por novos site, foquei mais aqui para conhecer novas teorias, troquei ideias com pesquisadores e intelectuais, enfim, fiz uma sorte de tarefas não planejadas para manter meu cérebro ativo.

Agora, nestes últimos 7 ou 9 dias, eu criei um board no Trello para eu me organizar e planejar melhor esses momentos. E tem funcionado. No final da semana passada, tive uns surtos de novas ideias e coisas diferentes que posso fazer.

Fique atento à sua rotina de trabalho remoto.

Acho que o principal conselho aqui é você ficar atento às adversidades que você pode passar no seu trabalho como remoto. Eu tive diversas características únicas, por conta dos meus dois cachorros, mudanças de cidade e também porque eu não fui forçado a trabalhar remoto, eu que vinha pedindo desde 2018.

Tome um tempo para se perceber, seja muito, muito transparente sobre suas dificuldades com sua gerência e tome planos para corrigir. Não sabemos quanto tempo o trabalho remoto vai durar por conta da pandemia, mas sabemos que ele é parte do futuro do trabalho.

Eu decidi compartilhar minha experiência pessoal, diferentemente de muitos artigos que escrevi aqui, porque acho que pode ser útil nesse momento que muitos farão essa transição. Inclusive na Aldeia estamos nos preparando para ter 100% do time remoto em breve.
Enquanto isso, para se desenvolver como um trabalhador no geral, descubra um pouco mais sobre quais são as inteligências que uma pessoas pode ter.

Deixe um comentário!

Comentário